A gente nunca sabe como será o amanhã. Durante toda a minha vida, eu me preocupei com o amanhã. Não o meu, mas o dos meus filhos. Da minha família. Sempre tive muito receio de deixar faltar alguma coisa em casa. O pessoal do trabalho mais proximo a mim, sempre lembra de como eu comprava e acumulava as coisas na dispensa de casa. As pessoas riam, porque eu não comprava pacote de papel higiênico. Comprava grandes fardos. Óleo de soja era de caixa fechada. O mesmo com leite. Arroz. Feijão. Tudo por receio do futuro. E meu receio não era infundado. As coisas não andaram do jeito que era preciso. Tive vários casamentos, três filhos. Não tive o prazer de estar com todos os meus filhos o tempo todo. E lamento profundamente por isso. Um famoso psicólogo me disse que meu problema renal crônico se associa a "medo". Hoje, com o meu prazo de validade de vida ainda vigindo, mas em fase final, olho para as fotos de meus filhos, meus netos. Todos sãos, sadios, fortes, felizes e depois de tudo, eles passaram pelo "olho do furacão" incólumes. De um jeito meio atrapalhado, de uma forma não muito honrosa, aos pedaços, mas a missão foi cumprida. Eles alcançaram a maioridade, a emancipação e estão aí, prontos para a vida. .E já cuidando da própria. Não preciso mais ter receio de nada. Creio que daqui para a frente, meus rins se acalmarão em sua furiosa faina de produzir cálculos. E no ocaso da vida, finalmente, posso concluir que não há mais nada a temer. Sou, afinal, dos meus medos, um homem livre.