Remexendo meus guardados, encontrei essa carta onde, tacitamente, peco perdao a todas as criancas deste mundo.
Querido João Hélio:
Não precisa chorar. Já passou. Neste
momento, vc está nas mãos do papai do céu, não é mesmo, anjo? Devolvemos você,
na plenitude da pureza e da inocência, para o céu, de onde um dia você saiu
para nos brindar com a sua presença e bonita companhia.
Joãozinho, neste momento, tem muita gente
orando por você em todos os cantos deste mundo. Um mundo que você mal conheceu
e que lhe devolveu uma insensatez infinita, violando a sua inocência e
maculando a sua pureza, com muita dor, espanto e desespero.
Tudo o que aconteceu foi muito de repente,
as pessoas que magoram você e provocaram essa tragédia, estão próximas de uma
bestialidade que contradiz a natureza humana e que afronta a bondade divina.
São homens maus que nem sabe porque são maus.
Na condição de ser humano, me julgo capaz
de representar a minha espécie, para vir humildemente à sua presença, João
Hélio, pedir desculpas. Pedir o seu perdão.
É comum a nós, humanos, cometer violências
como esta, desde tempos imemoriais e desde que um dia, do gólgota, aquele outro
ser divino também violentado, pediu ao Pai para perdoar-nos, porque não
sabíamos o que estávamos fazendo. É verdade, João Hélio. Nós não sabemos mesmo
o que fazemos, quando alimentamos um mundo onde a crueldade é considerada um
predicado, onde a insensibilidade é a tônica do dia e onde a indiferença deixa
os monstros serem criados livres e soltos, para a qualquer momento nos fazer
chorar.
Menininho, perdoa não só os homens maus que
fizeram você sofrer, mas aos homens que permitiram que a maldade crescesse e se
esparramasse por este mundo. Quando papai do céu manda para nós um menino como
você, trata-se de um recado de que Deus ainda quer confiar nas pessoas. Mas
parece que o que fizeram com você é um tapa no rosto de Deus, é a negação da
bondade, é a maldade pela maldade, nada mais importando, é o começo do suicídio
da humanidade.
Você foi para o céu levando um susto
enorme, um medo horrível, muita dor, uma dor demasiado grande, dependurado
naquele carro. Mas creia, susto maior
estão tomando as pessoas, ao verem que até você foi levado no meio dessa
violência toda.
Na roda viva de todos os dias, as pessoas
estão muito ocupadas para medirem as conseqüencias daquilo que elas fazem e
daquilo que elas não fazem.
Esses homens maus que fizeram você sofrer,
são produto de outros homens maus, que por sua vez, resultam da existências de
outros homens maus e que fazem coisas erradas sem se importarem com os
resultados. Em volta desse povo ruim, está outro tipo de gente, tido com
pessoas boas, que nem liga para nada e deixa as coisas acontecerem.
Um sábio já disse uma vez que o grande mal
deste mundo não são as pessoas ruins, mas sim as pessoas que permitem a
maldade. Afinal, a sua partida deste mundo de forma trágica, Joãozinho, é um
aviso de Deus de que todos nós vamos muito mal e que há algo muitíssimo errado
que, por nossa própria natureza, não queremos realmente enxergar.
Um beijo, querido, e que mais uma vez você
nos perdoe e que Deus, em sua infinita sabedoria, nos ensine a cada dia mais e
mais a deixar de lado o egoísmo, amar o próximo e fazer deste mundo, um lugar
melhor para se viver.
Desculpe, garoto. Perdão.
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